Ano da instituição da Fundação Vanzolini, 1967 é também o marco referencial para a convergência entre educação e tecnologia, em particular a moderna tecnologia da informação. Pois naquele ano foi concebida uma figura ao mesmo tempo inusitada e atraente: uma “tartaruguinha gráfica”. Para quem não a viu, trata-se de um robô computacional capaz de produzir desenhos mediante resposta a comandos de um(a) usuário(a). A tartaruguinha é a funcionalidade mais conhecida da Logo[1], uma linguagem de programação focada principalmente nas crianças e jovens.

A Logo granjeou expressivo êxito como ferramenta de apoio aos processos de ensino-aprendizagem, pois a criança ou jovem vê o resultado imediatamente após digitar um comando. A tela mostra claramente eventual erro no seu raciocínio, levando o(a) aprendiz a pensar no que poderia estar errado e, a partir daí, buscar soluções corretas. Esse avanço, cujo cinquentenário merece celebração, é importante tanto pelo resultado inovador como por reiterar o caráter interdisciplinar de inovações disruptivas. De fato, a Logo confluía abordagens e conhecimentos de lógica matemática, psicologia do desenvolvimento e inteligência artificial.

Qual será a relação entre educação e tecnologia em 2067?

Todo exercício prospectivo de longo prazo é uma aventura, em que a prudência recomenda ao aventureiro munir-se dos recursos possíveis. Assim, para subsidiar a construção do cenário daqui a meio século, convém, com sinceridade na análise e cautela na extrapolação, apreciar a evolução desses encontros nos seus primeiros cinquenta anos. Destaco alguns pontos: (i) incorporou-se ao “museu dos preconceitos tolos” a crença então disseminada na desconexão entre educação e tecnologia[2]; (ii) num movimento pendular, “tecnologia” – em especial os artefatos intensivos em tecnologia, tais como os computadores portáteis – passaram a ser vistos mundialmente como “a salvação da lavoura” no campo do ensino, inclusive para acelerar “saltos” nos sistemas públicos de ensino em nações de menor desenvolvimento relativo; e (iii) os efeitos diretamente atribuíveis ao uso intenso de tecnologia da informação em sistemas públicos de ensino de grande porte têm sido desiguais – com encontros exitosos, mas também desencontros retumbantes.

Num cenário referencial para 2067 cabe levar em conta, além do que pudemos aprender da trajetória já percorrida, dois fenômenos transformacionais de máxima relevância. O primeiro, previsível, é a crescente adaptabilidade das pessoas a novas tecnologias – não apenas dos(as) estudantes como também dos(as) professores(as), agentes essenciais do processo de ensino-aprendizagem. Estes(as), sem exceção, também serão nativos(as) digitais nessa data. O segundo, de menor previsibilidade, é a evolução das inovações, sejam elas as tecnológicas ou as de outras naturezas (socioeducativas, de modelos de negócio, organizacionais e mais). A dramaticidade das transformações nesse campo pode ser ilustrada pela evolução dos artefatos havida em cinco décadas. A grande novidade à época de Papert e seus colegas era o minicomputador, o primeiro dos quais com 1,80m de altura e 1,15m de largura (!), cujas vendas giraram ao redor das dezenas de milhares de unidades. Hoje temos o ubíquo celular, “inteligente” ou quase, que cabe no bolso, tem incomparavelmente mais funcionalidades e é amigável ao uso.

A convergência entre educação e tecnologia veio para ficar. Todavia, dos casos que acompanhamos, quer da literatura como da prática em que estamos envolvidos, estamos convencidos de que a relevância desse encontro para a sociedade dependerá crescentemente da efetiva incorporação de um elemento adicional. Trata-se da gestão em todos os seus âmbitos, desde o estratégico até o operacional. No estratégico, os desafios deverão ser tratados sistemicamente, não se deixando dominar pelo fetichismo dos artefatos ou pelo encantamento com softwares educacionais e objetos de aprendizagem. No âmbito operacional, as iniciativas de melhoria significativa da qualidade do ensino deverão ser gerenciadas como programas e projetos complexos, utilizando o vasto ferramental especializado disponível.

Progressos substanciais no desempenho de sistemas públicos de ensino, especialmente os de grande porte, estarão associados à convergência entre educação, tecnologia e gestão, formando um “triângulo virtuoso”.

Guilherme Ary Plonski é professor titular da Universidade de São Paulo e dirige a área de Gestão de Tecnologias em Educação da Fundação Carlos Alberto Vanzolini.

[1] Termo grego que significa razão. A linguagem “Logo” foi desenvolvida por três norte-americanos – Wally Feurzeig (pesquisador no campo da Inteligência Artificial), Seymour Papert (matemático e educador) e Cynthia Solomon (executiva pioneira no campo da Tecnologia da Informação aplicada à educação).

[2] “People laughed at Seymour Papert in the 1960s, more than half a century ago, when he vividly talked about children using computers as instruments for learning and for enhancing creativity, innovation, and “concretizing” computational thinking” (disponível em www.papert.org/).

Guilherme Ary Plonski