O Brasil continua sendo um país assentado sobre uma economia de baixa produtividade. Exatamente por isso, é mais do que justificado o destaque dado ao esforço das empresas, dos centros produtores de conhecimento e do setor público para estimular e facilitar os processos de inovação.

A construção de uma verdadeira cultura da inovação, em que um número significativo de empresas pequenas, médias e grandes inovem sistematicamente não é tarefa simples. Exige paciência, persistência e amadurecimento de valores e estratégias empresariais e públicas ao longo do tempo.

Apesar dos avanços, ainda há muitas dificuldades para quem quer inovar no Brasil, pois nossa economia, infelizmente, nem sempre é amigável à inovação. A lista de obstáculos é extensa e envolve desde ambiguidades regulatórias, e inclui a fragilidade da infraestrutura, passa por um emaranhado burocrático e pela estrutura regressiva de impostos, até chegar às dificuldades de suporte e financiamento. O resultado é um custo excessivo para as empresas – principais agentes da inovação –, o que aumenta o risco e a incerteza que normalmente fazem parte das atividades inovadoras.

Como atividade que gera valor e movimenta a economia, inovação é, antes de tudo, uma atividade que envolve gente preparada para tirar ideias do papel e colocá-las no mercado como produtos, processos ou modelos de negócio.
Para incentivar iniciativas inovadoras, apontamos a seguir alguns mitos que povoam o ideário sobre inovação, que, não raramente, moldam atitudes e influenciam decisões.

1. Inovação é uma espécie de artigo de luxo, apenas para empresas do tipo Apple, Tesla e Google.
Toda inovação injeta energia nas empresas, areja seus departamentos, mexe com as chefias. E uma empresa mais dinâmica com presença mais diversificada na economia melhora o nível da competição e provoca os concorrentes. Para atender a demandas dos consumidores e clientes, toda inovação gera valor e, com isso, ajuda a economia a criar empregos e a se desenvolver.

2. Inovação é sinônimo de alta tecnologia. Certo?
Errado. Inovação estimula também a criação de novos modelos de negócio, de novos processos, organização e cultura. E, com isso, novas marcas, marketing e design. Grande parte das inovações que acontecem pelo mundo afora é de pequeno porte e com baixo conteúdo tecnológico, ou mesmo nenhum. Por isso, as empresas inovadoras não necessariamente são as mais poderosas tecnologicamente, mas certamente são as que incentivam seus funcionários a experimentar, a aprender e a controlar riscos.

3. As empresas inovadoras são autossuficientes e se apoiam em seu próprio corpo de profissionais, que atendem a uma enorme gama de especialidades.
A realidade é que inovação é atividade de encruzilhada, que exige a participação de culturas e visões diferenciadas. A ideia do inovador solitário ficou para trás, se é que teve validade algum dia. Para inovar, as empresas se apoiam em suas capacidades, é certo. Mas as mais inovadoras sabem buscar competências para além de seus muros, escolher seus parceiros, aceitar colaboradores e selar alianças. É a forma de potencializar suas próprias qualificações.

4. Inovação é apenas para empresas que possuem departamentos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).
P&D é chave para muitas empresas. Mas a maioria esmagadora das firmas que inovam não possui departamentos de P&D. E, mais importante, talvez nunca precisem criá-los. Isso porque inovação ocorre com gente qualificada e um negócio com foco e bem montado. Inovação é atividade orientada e puxada pelas pessoas, independente do tamanho da empresa. Por isso mesmo, antes de pensar em high-tech, as empresas precisam dialogar com seus funcionários, impregnar sua cultura com a tolerância e ajudar seus gestores a aprender a ouvir.

5. Inovação é imprevisível, pois criatividade simplesmente acontece.
Pesquisas mais recentes com empresas de diferentes portes e dinâmicas mostram que método e disciplina facilitam a inovação. E muito. As empresas precisam de resultados. E somente as atividades estruturadas conseguem alcançá-los sistematicamente. Isso é a chave. Não se trata de inovar uma vez na vida. Mas se trata de inovar regularmente. Ou seja, de incorporar a inovação nas estratégias de crescimento da empresa.

6. Ao invés de inovar, as empresas podem emprestar as inovações de seus concorrentes.
Claro, produtos e processos mais complexos podem ser copiados como parte de um processo de aprendizagem. Muitas economias fizeram e fazem isso, assim como muitas empresas. Mas é bom lembrar que boas soluções para seu concorrente, ou de uma empresa do exterior, nem sempre são apropriadas à sua empresa ou ao seu mercado. Por isso, a cópia ganha maior sentido quando agrega diferenciações para atender à sua realidade, quando está orientada para a inovação.

Questões desse tipo costumam dar dor de cabeça às empresas toda vez que alguém pronuncia a palavra inovação.
Se inovar não é fácil, pode ter certeza de que se torna muito mais difícil quando é preciso enfrentar obstáculos criados por um discurso superficial e, não raras vezes, artificial.
O importante é abrir todos os sentidos de sua empresa às novas ideias e embebê-la com o espírito da inovação, reconhecendo que estas podem ser efetivamente aplicadas na melhoria de serviços, produtos, processos ou modelos de gestão.

Passos simples como saber ouvir e perguntar, mais do que falar e responder, quase sempre ajudam.
Para falar a língua da inovação, as empresas precisam investir nas pessoas, na sua formação (formal e informal) e na sua capacitação permanente. Para pedir aos funcionários que pensem “fora da caixa”, é preciso oferecer condições para isso. Há pouca controvérsia sobre o fato de que inovação tem a ver muito mais com gente qualificada e menos com equipamentos e alta tecnologia.

Glauco Arbix
Zil Miranda